sexta-feira, julho 21

Médio Oriente

O Hezbollah rapta 2 soldados israelista. Israel responde bombardeando o Líbano. Eis que vêm esquerdistas correndo numa cruzada contra a guerra.

É sabida por alguns frequentadores do blog a minha posição em relção à utilização de forças armadas para a resolução de conflitos mas irrita-me esta reacção tipo cão de Pavlov que, assim que ouve o sino começa a salivar. Na verdade, parece-me que só será contraproducente esquecer todo o contexto do Médio Oriente assim que Israel ataca o Líbano. Israel não é só um país que agride os seus vizinhos, é também um país que é agredido quotidianamente pelos seus vizinhos hostis. Defender o fim da Guerra sem uma posição clara e explícita contra o terrorismo acaba por isolar ainda mais um país que não tem qualquer razão para confiar em soluções diplomáticas quando elas se alicerçam em acordos com países que não têm (na melhor das hipóteses) qualquer controlo sobre o uso da força dentro do seu próprio país.

É por isso que não alinho nesta cavalgada anti-americana e anti-israelita e não alinharei enquanto estes movimentos não se aperceberem que defender a paz não tem que ser ficar do lado de países que convivem com o terrorismo e que não sabem o que é um Estado de Direito Democrático.

7 Comments:

Blogger koenige said...

Isto merecia uma resposta a sério, mas na falta de disponibilicade para ela, direi apenas que estas condenações a negrito, claras e explícitas, do terrorismo são o irmão desavindo do pacifismo esquerdista contra as quais se insurgem.

Nota-se que não passam de irritação edipiana, e desbaratam a sua razoabilidade esporádica ao levar ainda mais longe a mesma susceptibilidade de virgem ofendida, a mesma convicção na importância de tecer a priori grandes juízos de valor sobre o assunto, como se os escândalos da vida se desvanecessem se fossem apontados a dedo e aos gritos.

A maturidade deste embrião de discurso é a Helena Matos, a sua adolescência sebosa o Tiago Barbosa Ribeiro, que há uns dias chamava canalhas a quem fugisse de posições claras "perante este terrorismo apocalíptico que cruza todas as regiões do globo" (kontratempos). Como posições claras se define como recusa total ou aceitação total, e esta última se define como loucura psiquiátrica, vê-se bem a consequência: a irracionabilidade de tudo que não seja recusa total, a supressão de todo o debate sobre o assunto.

Quanto à natureza não-democrática dos inimigos de Israel, parece que neste caso o governo do Líbano foi democraticamente eleito, mas prefiro não falar do que não sei, para não reproduzir a imbecilidade de quem oficialmente sabe.

A frieza estratégica é melhor conselheira nestes casos que a indignação moral. É uma frieza que o mda também revela, quando não estraga tudo com moralismos.

7/24/2006 03:53:00 da manhã  
Blogger MDA said...

O meu intuito, com este post, não era o de condenar o pacifismo apesar de ser bem possível que o tivesse feito estivesse eu virado para aí. Até me esforcei par escrever um post sério.
Daí que a minha posição não reflicta em espelho um pacifismo bacoco inverso. Antes, a minha posição é de crítica em relação à Esquerda folclórica pacifista mas também em relação às Helenas Matos.
Os seja, o que tento afirmar é que uma solução de paz tem de passar por uma compreensão de ambos os fenómenos: o terrorismo e a postura belicista de Israel.
A minha critica centrou-se mais na Esquerda porque acho que é à Esquerda que deve surgir este pensamento, com os males dos outros posso eu bem. Não é honesto da tua parte achares que a compreensão do terrorismo é um esforço de imparcialidade e de justiça e que a compreensão da atitude belicista de Israel já é "estraga[r] tudo com belicismos".

Em relação à democraticidade do Líbano, não me referia à forma como o governo foi eleito (o que é uma parte da democracia mas sobre isso, não tenho grandes informações) mas à forma como o governo existente não controla (ou não quer controlar grupos como o Hezbollah.

7/24/2006 01:04:00 da tarde  
Blogger koenige said...

Estamos de acordo no essencial, então. Deixemos as prédicas moralistas para os ayatohllahs do ocidente, que nunca lhes chegaremos aos calcanhares, e procuremos crítica mas construtivamente uma interpretação decente de esquerda.

Certas palavras vêm infectadas de origem, trazem muita conotação prévia, muito pouco poder explicativo, e o teu post usou-as na medida suficiente para se deixar confundir com esse moralismo: esquerdistas em cruzada contra a guerra, terrorismo, posição clara e explíta contra o terrorismo a negrito e - a minha preferida - Estado de Direito Democrático em maiúsculas. Este paleio para mim é ideologia no sentido mais marxista do termo, a doxa sempre indefinida do que não se pode ousar discutir, que desqualifica instantaneamente quem procure fazê-lo. Diz muito pouco dos fenómenos a que se reporta, mas muito de quem as emite e recebe, suas circunstâncias e motivações.

Satisfaz-me não ser este o caso, mas aparentemente um mero equívoco terminológico. Pela minha parte, obviamente tento aplicar a mesma frieza ao beliscismo de Israel. Mas as reais motivações deste conflito são segredo de Estado, assunto de serviços secretos, não consigo vislumbrá-las. Talvez o camarada João Pena possa dar uma ajudinha...

Com as informções superficiais que tenho, vejo todavia uma tremenda desproporção de meios e de vítimas. Por isso a minha simpatia subjectiva vai por ora para os libaneses, e o hipotético cretinismo no pacifismo esquerdista tem pelo menos boas intenções (a defesa de uma parte mais fraca) que irritarão mas não magoam ninguém, pelo que não deve dominar as nossas reflexões. Fica feito o meu parti pris.

7/24/2006 06:32:00 da tarde  
Blogger MDA said...

Mas eu nunca tentei fazer nenhum discurso isento, de facto o meu post está carregado dessa ideologia mas ela não inquina nenhum debate. Aliás, o debate não deve ser feito em torno de uma demanda pela verdade mas em torno das nossas opiniões políticas e ideológicas.
Quanto a simpatias, a tua pelos oprimidos é predominante na Esquerda e, essa sim, muito pouco produtiva do ponto de vista do debate. O meu debate faz-se na defesa de um Estado de direito democrático (em maiúsculas ou minúsculas). Até poderá ser moralismo mas a relativização cultural tem limites.

7/24/2006 07:53:00 da tarde  
Blogger koenige said...

Qualquer debate é feito em torno de opiniões, mas convém que sejam fundamentadas. Se chocam abertamente com a realidade verificável, deixam de explicá-la, emboram possam servir para outras coisas (legitimá-la, p. ex.).

A verdade nesta matéria estará muito tempo por alcançar. As motivações reais de Israel para a ofensiva no Líbano sabe-las-ão os ministros e militares israelitas mais uns poucos congéneres estrangeiros, e guardá-las-ão sabiamente sob segredo de Estado, que é a alma deste negócio. A nós cá fora só resta a suposição falível.

Mas, para além de explicar a realidade, o discurso serve também para julgá-la, determinando o que pensamos e fazemos sobre ela, com consequências muito reais. P. ex. se a opinião pública israelita ou americana esmagadoramente considerasse a ofensiva inaceitável, os seus governantes acabariam com ela, e têm o poder real para fazê-lo -- são os únicos, aliás. Creio que as manifestações públicas pela paz jogam nessa lógica, assim como a outro nível o paleio do Estado de direito democrático ou da defesa dos oprimidos -- tudo formas de intervir indirectamente sobre a realidade.

O que é um Estado de direito democrático? Sem uma definição mais precisa, resta a interpretação corrente dos media: EUA, Europa, Japão, por vezes América Latina e, claro, Israel. Qual é o efeito de invocá-lo neste contexto? Criar uma identificação com Israel e uma oposição com os árabes, dividir as coisas entre "nós" e "eles", facilitar a aceitação tácita das acções israelitas cujas motivações, disse eu ali atrás, são outras e grandemente desconhecidas.

E mesmo aceitando estes termos distorcidos: em que é que a ofensiva israelita defende o Estado de direito, em comparação à sua inexistência? Ela mesma é uma violação directa do direito internacional. O Estado de direito saiu favorecido no Líbano com ela?

Em todo o caso a questão interessante para mim é a estratégica, não a treta do Estado de direito.

7/25/2006 12:58:00 da manhã  
Blogger MDA said...

A verdade é que existe um "nós" e um "eles" e, nesse campo, identifico-me muito mais com Israel do que com o Líbano. Quando me referia a Estado de direio democrático, referia-me, por exemplo a essa característica clássica dos Estados modernos que é o monopólio do exercício de violência, mesmo que esta intervenção não seja em defesa do Estado de direito (aliás, nunca disse tal coisa).
De resto, entre "manifestações públicas pela paz" e o "paleio do Estado de direito democrático" há pouco a dizer.
Questões de estratégia é favor remeter para o Prof. Marcelo ou para o Nuno Rogeiro.

7/25/2006 10:32:00 da manhã  
Blogger Boris Shroeder said...

Permitam-me dar razão à existência de estados de direito democrático (EDD), e à possibilidade dos mesmos se defenderem daqueles que ainda necessitam de algumas guerras civis, para se endireitarem, e conseguirem viver com os outros (sem ter de os matar, mesmo que à pedrada)...
Ainda assim acho que Israel não é bem um EDD, uma vez que ainda fomenta o ódio entre os vizinhos nas camadas jovens, com uma política (de carreira) militar que choca um bocado com aquilo que se entende por cidadania!

7/27/2006 02:47:00 da manhã  

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