domingo, julho 2

As novas missas do velho sistema

Leiam, leiam, leiam as "Lições da Democracia na América" de Francisco Jaime Quesado, "gestor do Programa Operacional Sociedade do Conhecimento", no Público de hoje, 2 de Julho, ano da graça de 2006, página 19. A fazer lembrar o saudoso Fernando Ilharco e aquele seu talento especial de dizer com a maior erudição as maiores banalidades.

Tive alguma dificuldade em entender do que falava, o que é sempre auspicioso. Dizia ele que eram umas "breves (!) reflexões sobre as lições que a experiência da maior democracia do mundo nos dá na era da consolidação da economia global e da sociedade do conhecimento". Os EUA, pois claro, esse país "que se reinventa em cada momento para se ajustar à evolução dos tempos" (os outros porventura não o farão?), que "continua a querer liderar o paradigma da evolução competitiva assente numa matriz social clara, em que a oportunidade é dada a todos, cabendo ao mercado a decisão objectiva da selectividade em que nem todos conseguem vencer". Ficamos a saber que a sua dinâmica é central "na abordagem sustentada do novo paradigma que se pretende para a Agenda de Lisboa na Europa e no nosso país" - consider yourselves warned.

As lições americanas são três: a reinvenção cultural pela criatividade, a reengenharia corporativa pela inovação e a revolução social pela participação (!). É demasiado delicioso para que eu possa acrecentar grande coisa. Fiquem com um cheirinho da primeira lição:
"O exercício da criatividade como elemento de qualificação da participação individual em democracia é decisivo na sociedade do conhecimento. Praticada sob a forma de culto em referência corporativas como a Ideo, Apple, etc. (...) é o exemplo mais acabado da oportunidade de participação construtiva do indivíduo no tecido social a que pertence"
O iPod como paradigma da democracia participativa? Que dizer destes neo-teólogos do séc. XXI? A sociologia desta neo-religião da mercadoria é o futuro.

Mais lapidarmente, tinha Guy Debord concluído em 1988:
"Esta constatação, de que pela primeira vez se pode governar sem ter nenhum conhecimento artístico nem nenhum sentido do autêntico ou do impossível, poderia por si só bastar para conjecturar que todos estes ingénuos patetas da economia e da administração vão provavelmente conduzir o mundo para uma grande catástrofe; se a sua prática efectiva não o tivesse já demonstrado"
Não é, tr?

2 Comments:

Blogger tr said...

Caro amigo,
Posso apenas dizer-te, com toda a sinceridade, que não percebi inteiramente onde queres chegar, nem a «questão» que procuras polemizar. O articulado do texto visa induzir uma reacção polarizada em torno do único «objecto» que colocas em discussão - os EUA. Os termos que o teu subtexto estabelece situar-se-ão, por conseguinte, entre o pró e o antiamericanismo: o suficiente para não merecer o nosso investimento argumentativo, não achas?

7/03/2006 04:53:00 da tarde  
Blogger koenige said...

Nada disso, meu caro. Admito ter sido vago na definição da questão, o que vem (1) da matéria prima em sim (2) da minha crítica a ela ser por alto e não a fundo. Mas o meu subtexto nada tem a ver com antiamericanismo, antes com a elaborada retórica do "mercado" que esta sociedade chega a desenvolver. Como tens andado interessado nestas coisas do mercado, interessava-me sim a tua opinião sobre estes exemplos de retórica mercantil. Revês-te nela? O que é que achas deste texto do Quesado?

O resto é picanço que não merece a tua irritação. Pica também, e tout sera por le mieux dans le meilleur des mondes possibles.

7/03/2006 05:45:00 da tarde  

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