sexta-feira, julho 7

Mini-racionalidades e constelações de sentido, em Pacheco Pereira

«Há uma semana, escrevi aqui sobre a necessidade de uma "oposição liberal moderada", o que é o mesmo que há muito tempo defendo. Escolhi as palavras e a sua ligação, substantivo e adjectivo, com um cuidado guatemalteco, recordando-me do seu poder ilusório, do seu enorme poder porque é ilusório. Escrevi uma "oposição liberal moderada", como podia ter também ter escrito uma "oposição liberal reformista", o que ofende os puristas, e parece querer dizer nada, mas diz bastante. O que não dá, nem eu a procuro, é identidade pelo nome. É liberalismo, mas não é o "liberalismo". É a prática mais do que a doutrina, porque, se houver pulsão liberal, basta-me. Se em cada medida de política se escolher a que mais nos dá liberdade, política, social, económica, cultural, é esse o caminho. É mais facilmente distinguir e escolher assim do que numa discussão doutrinária abstracta.
Não me interessa discutir a privatização dos rios, posso bem deixá-la para um longínquo futuro, mas já me importa combater pela saída do Estado dos partidos políticos, das centrais sindicais, das confederações patronais, das companhias de teatro subsidiadas, das "bolsas para escritores", do futebol, dos órgãos de comunicação social, ou seja do negócio da propaganda, do subsídio e da protecção. Feito isto, expulsado o Estado de onde ele não deve estar, nem muito nem pouco, podemos passar para onde ele deve estar minimamente. É que sem Estado mínimo, não há justiça social. O Estado máximo que temos é a melhor garantia de que os recursos escassos serão sempre mais para os que não precisam do que para os que precisam. E é isso que me interessa, não é ter uma camisola com o nome de liberalismo ao peito.
Se vamos para os dogmas, perdemo-nos; se olharmos para as políticas, achamo-nos. Mais do que liberalismo pela cartilha doutrinária eu quero políticas liberais, vontade liberal, gosto irredutível por todas as liberdades. Se não, no puede ser.»

2 Comments:

Blogger koenige said...

Cómica a história que ele conta acerca da perversidade dos rótulos e mais geralmente dos dogmas, antes deste excerto, e pertinente a reflexão a esse respeito. O resto...

Haverá dogma maior que a liberdade? Ele é liberdade de tomar as drogas que se entende, de fazer o que se quer com a barriga, de escolher entre 20 marcas diferentes do mesmíssimo produto, de escolher em que terra se vai ser operado à vesícula, de baixar salários e fazer dumping para enfrentar a concorrência, de expulsar emigrantes pela liberdade dos nativos - e já agora de fazer o oposto de tudo isso. Há alguém que se reivindique contra a liberdade? Já cansa tanta liberdade. Com a liberdade justifica-se tudo e o seu oposto. Ou se define muito bem a que liberdade se vem, ou não se sai do fala-barato.

Mas o próprio Pacheco revela logo a seguir a que liberdade vem. Não cabe lá p. ex., uma liberdade plasmada em muita constituição desse mundo, a liberdade cultural, como seja a liberdade de ir ao teatro (que deixada ao mercado não parece lá muito segura...) ou de escrever uns livros.

Para ele o Estado tem é de dar esmolas "aos que precisam", que este "Estado máximo que temos" (ainda?!) desperdiça em regalias aos que não precisam (supomos). A direita ultimamente bate muito nesta espoliação "dos que precisam" pelos que "não precisam", mas nunca diz claramente quem é quem. Faz-me lembrar o Estado assistencialista de outros tempos - alguém se lembra? Curiosas cambalhotas dá esta gente, e outra.

Tocante é o tom meio nostálgico. Ah, "a prática mais do que a doutrina, porque, se houver pulsão liberal, basta-me"! Ah, a "vontade liberal, gosto irredutível por todas as liberdades"! Que coisa tão romântica, tão generosa, tão... esquerdista! Andará o Pacheco desiludido com os seus comparsas? Verterá uma lágrima pelos esquecidos comparsas esquerdistas da sua juventude?

7/08/2006 01:02:00 da manhã  
Blogger koenige said...

Por outro lado: "se vamos para os dogmas, perdemo-nos; se olharmos para as políticas, achamo-nos. Mais do que liberalismo pela cartilha doutrinária eu quero políticas liberais, vontade liberal, gosto irredutível por todas as liberdades". Ah, sempre amargas também, as memórias do passado. Mudamo-nos para a casa do inimigo e o problema continua! Parece bruxedo!

7/08/2006 01:09:00 da manhã  

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