segunda-feira, julho 3

«As novas missas do velho sistema» - koenige

Discutir o «mercado» supõe um exercício analítico distinto daquele que convocamos para descontruir a «retórica do mercado». É significativo (e suspeito) que enfatizes esta última dimensão quando o problema que aparentemente está na base do teu argumentário reside nos processos de «desenvolvimento» e na sua relação mais ou menos dependente ou «obcecada» com o supracitado. No post inicial acrescentam-se ainda outros factores que, em teu entender, têm sido como que «cooptados» pela racionalidade mercantil (criatividade, participação, etc.), quando, por essência, lhe serão constitutivamente avessos. Em termos gerais (como se coloca aqui a discussão), podemos considerar o contexto funcional do mercado como o dispositivo económico histórica e socialmente mais satisfatório no que toca à inovação e a renovação da oferta (material, cultural), dadas as circunstâncias concorrenciais em que opera e a necessidade de cativação e/ou fidelização de novas clientelas consumidoras. Daí que não me seja inteiramente penoso reconhecer as potencialidades da iniciativa económica civil na qualificação dos seus recursos humanos e no investimento em circuitos comerciais mais sofisticados (e «criativos»), eventulamente mais competitivos, mas que asseguram produtos (bens, serviços, etc.) apetecíveis à procura existente ou a existir. Em todo o caso, não me é igualmente difícil reconhecer que os mecanismos comerciais accionados pelos agentes económicos (gestão estratégica de investimentos) devem encontrar-se submetidos a um enquadramento jurídico resultante da política económica definida para os diferentes sectores (bolachas não são cuidados de saúde), ainda que na salvaguarda da livre iniciativa e da concorrência, ambas vantajosas para o mercado de consumo, e sem nebulosidades dirigistas (nas suas mafiosas cambiantes). O que não é exactamente o mesmo que deixar «ao mercado a decisão objectiva da selectividade em que nem todos conseguem vencer». Dito como é dito (ou como o apresentaste), não passa de propaganda primitiva na mesma medida em que o é a desconfiança sistemática pelo sucesso da economia de mercado, ambas desdenhosas e vingativas do liberalismo (nomeadamente político) e reivindicativas do autoritarismo estadual, quer quando concentra e burocratiza a actividade económica (e cultural), quer quando, em conluios nada ocasionais, bloqueia a dinâmica do mercado, em nome do... mercado. Quanto à Agenda de Lisboa, dada a sua envolvência e até voluntarismo na estipulação de metas económicas e sociais para os países europeus nos próximos anos, constitui um esforço de requacionamento do modelo de crescimento e desenvolvimento das sociedades de bem-estar, em função do novo quadro económico internacional e da localização exacta da Europa nesse panorâma ultracompetitivo, procurando assegurar-se a protecção dos estados-membros face à emergência de novos actores económicos e ao impacto diferenciado que tem vindo a produzir nos ritmos e malhas económicas distintas por que é composta a União Europeia. Os protagonistas políticos nacionais e comunitários farão diferentes apropriações e conduções da Estratégia de Lisboa e, até agora, pouco temos conhecido, senão a imposição da contracção da despesa pública e, com indefinição e alguma turbulência, o redimensionamento quantitativo e qualitativo das funções do Estado. Por mais redundante que seja, parece-me que Lisboa, ainda assim, diz de facto muito mais da Europa que dos EUA, não apenas pelo património social («providencial») dos Estados que procura reciclar em função do contexto transnacional experimentado nos últimos 20 anos, mas igualmente pelo processo de integração política, no mínimo, original, ainda que sem «consensos» engenhosos (como algum «centro» político força e postula) e democraticamente mais vigiado e conseguido.
Agora, «todos estes ingénuos patetas da economia e da administração vão provavelmente conduzir o mundo para uma grande catástrofe»? É sempre muito mais cómodo o ódio ou o fatalismo. Eu, entretanto, sugiro a realidade.